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A restrição do glúten e as dietas da moda

Definition of gluten

A alimentação humana é um fenómeno complexo que vai além da Nutrição como disciplina científica, pautada pelos avanços no conhecimento humano e evidência disponível. É uma mescla de ciência, tradição, preferência, disponibilidade, necessidades, pressões sociais, e emoção. Como tal, é natural que a nossa alimentação sofra da volatilidade da moda e da tendência. As últimas décadas têm sido particularmente férteis em dietas para os mais variadíssimos fins e para todos os gostos. Não é fácil filtrar toda essa enxurrada de informação e desinformação, e ter o espírito crítico para formular uma opinião sólida é urgente. No entanto, é importante distinguir o que é moda do que é ciência, e muitas vezes embrulhamo-nos entre ambas. A questão do glúten é um óptimo exemplo, muitas vezes misturada com o com os princípios da Dieta Paleolítica ou “Low-Carb”. Pode por alguns ser conotada como mais uma tendência dietética efémera, mas na verdade existem motivos plausíveis e suporte científico para alguns de nós decidirem não o comer.

Nas últimas décadas as dietas “Low-carb”, restritas em hidratos de carbono, e a dieta “Paleo” têm crescido a olhos vistos. Esta última trata-se de recuperar alguns dos hábitos alimentares que os nossos ancestrais teriam, ou melhor dizendo, que nós pensamos que tinham de acordo com o registo fóssil disponível. No mesmo espaço temporal foram surgindo também, inicialmente de uma forma muito tímida, alguns sinais de que o glúten, uma proteína presente no trigo, centeio e cevada, poderia estar a prejudicar grandemente a saúde de milhões de pessoas. Claro que estas evidências foram adoptadas para fundamentar a dieta Paleolítica, isenta de cereais e portanto glúten, ou mesmo o “Low-carb”. No entanto, tratam-se de questões independentes e que surgiram de uma forma totalmente distinta. A dieta Paleo de uma teoria eloquente e “fascinante/romântica”, a restrição do glúten do trabalho de uma equipa de investigadores e médicos italianos sediados nos Estados Unidos, liderada pelo Dr. Alessio Fasano, naquele que foi a meu ver um dos maiores contributos para as ciências da alimentação desde sempre. Como gastroenterologista, o Dr. Fasano encontrou evidências factuais de reacções ao glúten para além da incomum Doença Celíaca e alargou a nossa visão do espectro de reações a esta proteína tão disseminada na nossa alimentação.

Na verdade, o regime Paleolítico é ele próprio muitas vezes confundido com “Low-carb”, embora a própria actualização do conceito para os nossos tempos se insira nessa vertente dietética. A dieta Paleo como foi defendida por Boyd Eaton e Loren Cordain é de facto também restrita em hidratos de carbono, excepto alguma fruta sazonal, tal como a idealizaram no passado distante dos primeiros Homo sapiens. No entanto, o conceito foi desde então flexibilizado e “actualizado”, com alguns aspectos positivos e outros negativos. Mesmo tendo esta linha a sua veracidade histórica e plausibilidade biológica, isto não significa que no contexto actual seja a melhor abordagem para todos. Muito mudou relativamente ao Meio ancestral e o nosso próprio estilo de vida não poderia ser mais dissonante.

Falei-vos já sobre o que é a carga alostática e qual o efeito fisiológico do “peso do stress” [LINK]. Aliar uma dieta severamente restritiva em hidratos de carbono a uma carga alostática forte poderá levar a um aumento exacerbado da exposição ao cortisol, com reflexo negativo na saúde e também composição corporal [LINK]. Vivemos também um tempo em que a actividade cognitiva é constante, não fossem muitas das nossas ocupações de caracter mental, profissionais ou lúdicas. Assim como muitos dos factores de stress. O cérebro é um órgão sedento de energia, que a pode obter apenas através da glicose ou corpos cetónicos, embora não mais de 2/3 mesmo em situações de privação severa em hidratos de carbono. Numa dieta Paleo, em que ingerimos uma quantidade significativa de proteína, e muitas vezes proteína magra, dificilmente entraremos num estado de cetose que permita um contributo significativo para a energética cerebral.

Claro que num indivíduo sedentário essa necessidade de hidratos de carbono é facilmente satisfeita com alimentos incluídos na matriz Paleo, e na verdade será até contraproducente em muitos casos a inclusão de outras fontes de elevada carga glicémia. Poderá resultar em flutuações acentuadas da glicemia, e consequentemente também a um aumento da exposição ao cortisol e hiperfagia. Não quero de forma alguma passar a ideia de que o consumo de hidratos de carbono deve ser feito sem contenção, e na verdade o peso que eles têm na dieta Ocidental é bem superior às reais necessidades da maioria das pessoas. Há quem considere 40% de hidratos carbono “low-carb”, mas muitas vezes poderá até ser demais.

Estas são apenas algumas razões para se olhar a dieta Paleolítica de uma forma crítica, perguntando sempre “para quem”, “como”, e “em que enquadramento”. Na verdade, é bem provável que o impacto na saúde do nosso estilo de vida corrosivo seja superior ao da alimentação em si. O stress, má higiene de sono, violação da nossa cronobiologia, e exposição permanente a agentes tóxicos, entre outros. São apenas aspectos mais difíceis de controlar em animais de hábitos e vícios como nós. Os maus hábitos alimentares podem até dever-se em grande parte a esse mesmo estilo de vida decadente, onde o tempo é escasso e com a comida em alguns momentos a preencher o vazio das nossas vidas. Tudo isto em conjunto levou a uma mudança do nosso “normal” para uma composição corporal menos favorável, com maior retenção de gordura num sistema sob agressão constante, e um estado de inflamação crónica sub-clínico que mina a nossa saúde todos os dias mais um pouco. E aqui a dieta tem um grande contributo, em particular o glúten como veremos.

Mas apesar das incongruências na transição do conceito para os nossos tempos, não vejo uma única directriz neste modelo Paleo que considere com impacto negativo em termos de saúde. Coma carnes e peixes, preferencialmente criados ao ar livre e com a sua alimentação natural, vegetais, frutas sazonais, oleaginosas, gorduras saudáveis como o azeite, abacate e óleo de coco. Também está longe de ser um regime limitativo do ponto de vista nutricional como muitas vezes se vê referenciado. Os nutrientes presentes noutros grupos alimentares restringidos, como os cereais e lácteos (sim mesmo o cálcio), não são exclusivos e podem ser obtidos através desta matriz Paleo. A atenção pela forma de produção e a restrição às farinhas refinadas é também incontestavelmente positivo. Portanto, é um modelo alimentar com bastantes pontos de louvor e, no geral, certamente melhor que a dieta “normal”, entenda-se típica de hoje em dia.

Mas a limitação que mais incomoda alguns no regime Paleo é mesmo a retirada dos cereais, tão enraizados na nossa alimentação tradicional e com um peso cultural grande. Mexer com tradições é sempre um trabalho ingrato porque a razão poucas vezes leva a melhor. Os cereais nem sempre fizeram parte da nossa alimentação e só no Neolítico o seu consumo se tornou significativo, há cerca de 10 000 anos atrás, e gradualmente a base da dieta humana. Não porque eram melhores nutricionalmente, mas porque continham mais energia e o seu cultivo permitia ter alimento disponível todo o ano. Estavam ali à mão de semear, literalmente. Na verdade, é bem provável que o espectro micronutricional da alimentação tenha ficado bem mais restrito neste período devido à grande dependência de um único grupo alimentar. E esta transição fez-se por necessidade, e não deve ser vista necessariamente como um progresso.

É fácil pensar em aspectos negativos que esta transição sedentária nos trouxe, como a obesidade e doenças crónicas por exemplo, mas é importante não esquecer também os positivos – capacidade cognitiva por maior alocação energética. Com os cereais tínhamos mais energia disponível para um orgão muito dispendioso como o cérebro, e já não tínhamos de despender tanto com a recolha dos alimentos e arriscar a vida na caça. Apesar de o aumento do aporte de ácidos gordos essenciais, nomeadamente ómega-3 com o consumo de peixe, ter sido a força motriz para a encefalização [LINK 1, LINK 2], no que toca a energia os hidratos de carbono foram de extrema importância [LINK]. Acredito que as mudanças que advieram do Neolítico foram as grandes responsáveis pelos nossos avanços culturais, científicos, e sociais. Pela primeira vez o Homem pôde dedicar-se a algo mais do que as suas necessidades básicas. A saúde poderá ter sido um pequeno preço a pagar pela Humanidade com a dependência alimentar dos cereais.

A dieta Paleo tem aspectos louváveis, mas o cunho com um regime ancestral idealizado faz com que corra o risco de se tornar mais uma dieta entre tantas, descontextualizada da actualidade e realidade das pessoas. É importante centrar-mo-nos nos aspectos científicos que validam ou não cada uma das premissas, pois em muitos casos existem, noutros não. Só assim conseguiremos uma discussão séria sobre temas por demais importantes. A partir do momento que encontramos uma justificação plausível e suportada, e não com mera argumentação emocional e crença, é importante estarmos receptivos a aceita-la e não deixar que os nossos preconceitos e tradições impeçam a mudança de hábitos para melhor. O glúten é um exemplo disso mesmo. Se existe evidência para os malefícios do trigo numa fatia significativa da população, e não um pequeno nicho como muitos pensam, deveremos então estar abertos a uma mudança das nossas tradições alimentares “desde sempre”.

Argumentar em defesa do glúten com “sempre fez parte da nossa dieta e só agora é que se lembraram que fazia mal” não vale, até porque é falso. Na história evolutiva da nossa espécie, o glúten e o trigo são recentes. Dez mil anos é pouco tempo à escala da evolução, e dificilmente terá havido espaço para uma adaptação generalizada ao seu consumo. O que existiu foi uma seleção parcial de fenótipos com mais tolerância, e na verdade, nos casos de hipersensibilidade não-celíaca (já veremos os diferentes tipos de reacção ao glúten), o efeito não se manifesta com uma menor fitness reprodutora. A selecção de fenótipos sensíveis ao glúten não é grandemente afectada.

Mas antes de fazermos qualquer consideração ou juízo de valor em relação à retirada do glúten da dieta, vamos a alguns factos sobre esta proteína tão mal compreendida:

1. O que é o glúten?

O glúten é uma proteína complexa, presente no trigo, centeio e cevada, constituída essencialmente por duas fracções: gliadinas e as prolaminas. As primeiras são as principais responsáveis pela reacção inflamatória do nosso sistema imunitário quando existe contacto. Uma característica importante da gliadina é a sua riqueza em sequências repetitivas de dois aminoácidos, a prolina e glutamina/ácido glutâmico. Ora, nós não temos enzimas digestivas capazes de decompor esta proteína pois não reconhecem estas sequências de aminoácidos, e a própria estrutura da prolina (imina) dificulta a acção enzimática. Portanto,

Nenhum ser humano neste Planeta consegue digerir totalmente o glúten.

Na verdade, a título de rigor, na membrana dos enterócitos existe uma enzima capaz de o fazer, a Dipeptidilpeptidase IV (DPPIV), mas cuja eficiência no processo é bem reduzida e de efeito marginal.

O glúten confere propriedades elásticas únicas aos alimentos. Aquele pão fofinho ou aquela massa estaladiça não se consegue sem trigo, o cereal mais rico em glúten. Esta é também uma das razões pela qual ele está tão enraizado na nossa alimentação, não como o cereal integro, mas os seus derivados – pão, massas, bolos. O problema é que estas mesmas propriedades elásticas e de “cola” preservam-se no intestino, e dai grande parte dos distúrbios gastrointestinais que muitos sentem ao ingerir trigo. Por exemplo, algumas pessoas com Síndrome do Intestino Irritável sentem melhorias significativas com a retirada do glúten, apenas pela agressão que a proteína provoca às paredes do intestino. Como uma cola a ser “puxada” durante o peristaltismo (movimentos intestinais). Reações como inchaço abdominal ou alternância entre obstipação e diarreia são comuns nestes casos.

2. Onde está presente o glúten?

Como vimos, todos os derivados de trigo, centeio e cevada têm glúten na sua constituição. Falo de pão, massas, bolos, bolachas, mas também de outros alimentos que muitos não pensariam – molho de soja, cerveja, ketchup, fiambre, e muitos dos alimentos processados que encontramos num supermercado. O consumo médio de glúten na Europa ronda os 10-20 g por dia, com alguns segmentos populacionais a consumir até 50 g por dia. Um pouco mais nos EUA. Para termos uma ideia, uma fatia de pão pode ter cerca de 5 g. Outros cereais como a espelta, kamut, amaranto, também têm glúten, embora em menor quantidade e com menos gliadina. A aveia também têm uma proteína familiar, mas não tão reactiva. O glúten está por todo o lado!

3. O que faz o glúten ao nosso organismo?

A reacção do nosso sistema imunitário a proteínas estranhas é um mecanismo de defesa essencial à vida e que nos protege diariamente de agressores. Mas a verdade é que essas proteínas estranhas podem também vir de alimentos e não só de patogenos, como é o caso do glúten, que como vimos não é devidamente destruído na digestão. O intestino é um orgão de elevada actividade imune, não fosse uma barreira primária a “ataques” exteriores. Quando essa barreira está comprometida, o contacto com as proteínas alimentares leva a um estado inflamatório resultante da actividade imunitária, que dependendo da extensão e tempo, pode amplificar-se sistemicamente. Claro que existem proteínas mais reactivas do que outras, e a gliadina é particularmente agressiva.

Mas uma característica única ao glúten é mesmo a capacidade de comprometer a barreira intestinal, aumentando a permeabilidade entre células. A gliadina do glúten estimula a produção de zonolina, uma proteína intestinal que “desmonta” as tight junctions, estruturas que fecham os espaços entre células justapostas. Disto resulta que não só a gliadina contacta mais facilmente com as células imunitárias, que estão essencialmente na lamina basal e espaço circundante, como também todas as proteínas alimentares mal digeridas se tornam potenciais agressores no nosso organismo. A reactividade a outros alimentos que não o trigo aumenta, e tornam-se potencialmente inflamatórios.

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Quando falamos da inflamação gerada por sensibilidades alimentares estamos claro a falar de um processo sub-clínico, que se manifesta discretamente no organismo e com sintomas generalistas associados a tudo e mais alguma coisa. Desde dores de cabeça a retenção de líquidos. Mas como se diz na gíria popular, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Uma inflamação ligeira por muitos anos pode ter um impacto profundo na nossa saúde, principalmente em processos crónicos como são a maioria das doenças “modernas” – diabetes, doença cardiovascular, doenças autoimunes.

No caso da Doença Celíaca estamos a falar de uma patologia com forte componente genético que leva a uma reação imunitária extrema de destruição da mucosa intestinal. Esta destruição leva a distúrbios gastrointestinais severos e risco de carências nutricionais várias por má-abosrção. A prevalência é baixa mas nos últimos anos tem vindo a crescer. Não creio que por um aumento real no número de casos, mas sim por um maior alerta por parte dos médicos no diagnóstico e melhores ferramentas. O tratamento é simplesmente a retirada total do glúten da dieta, e até a contaminação residual pode provocar uma reacção imediata. No entanto, a Doença Celíaca é provavelmente apenas a ponta do iceberg no espectro de reacções ao glúten alimentar, assim como a lesão da parede do intestino.

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4. Porque razão somos tão dependentes do glúten?

Existem questões culturais obvias, mas que não podem ser usadas como argumento a favor. Na verdade, é falta de argumento. Não é por estar enraizado na nossa dieta há anos que o trigo assume o papel de intocável e inócuo para a saúde, até porque a doença, de uma forma ou de outra, sempre fez parte das nossas vidas, e das dos nossos avós. O enquadramento é que mudou bastante ao longo dos anos, e hoje poderemos estar mais permeáveis ao lado menos bom do glúten. O sistema imunitário está em sobre-carga com tantas agressões externas e internas. E o meu pai comia sopas de vinho ao pequeno-almoço quando pequeno, e hoje é impensável na sociedade modernizada dar álcool a uma criança. Novos tempos.

Claramente que as propriedades do glúten também o tornam extremamente apelativo e versátil nas suas aplicações culinárias. No entanto, pode haver uma explicação biológica para a nossa dependência do trigo e do glúten. Há muitos anos que se reconhece a presença de certos péptidos em alguns alimentos com propriedades semelhantes à morfina, com a devida distinção – as exorfinas. Estas substâncias ligam-se aos receptores opióides no nosso cérebro, podendo assim accionar alguns mecanismos de recompensa e essencialmente dependência. O glúten tem estas exorfinas, a gluteomorfina mais propriamente. Então mas estes peptidos bioactivos não são digeridos como as outras proteínas? Não se forem ricos em prolina, como são.

Conhecendo melhor o glúten, estamos em condições de falar um pouco mais sobre o espectro de reacções associado ao seu consumo. Como vimos, a Doença Celíaca é o expoente máximo da intolerância, mas outras condições existem que podemos classificar em autoimunes (Doença Celíaca e Ataxia pelo glúten), alergia ao trigo, e sensibilidade ao glúten não-celíaca. Vamos focar-nos essencialmente nesta última pois é sem dúvida a mais mediática, e certamente a mais prevalente embora até há bem pouco tempo tenha sido desconhecida pela comunidade médica [LINK]. Como tal, prevalência zero. Não porque o problema não existia, mas apenas porque não havia diagnóstico.

A sensibilidade ao glúten é como vimos uma reacção do sistema imunitário à ingestão de glúten, mais propriamente à gliadina, que afecta uma proporção de pessoas difícil de estimar. Isto porque os sintomas são muito pouco específicos e só uma dieta de exclusão pode de facto comprovar a reacção ao glúten. Alguns dos sintomas possíveis e mais prevalentes são:

Dor e inchaço abdominal
Eczema
Dores de cabeça/enxaqueca
Confusão mental
Diarreia ou obstipação
Fadiga crónica
Depressão
Anemia
Parestesia (formigueiro nos dedos)
Dores articulares
Retenção de líquidos

De outros poderíamos falar, e de alguns casos particulares associados a disfunções da tiróide por exemplo. Estima-se que a prevalência nos EUA da sensibilidade ao glúten possa andar pelos 6% – 19 200 000 pessoas, um número gordo a que dificilmente podemos chamar “nicho”. O dobro da população Portuguesa, só nos EUA. Pondo os números em perspectiva, não parece assim tão pouco e insignificante. E na verdade julga-se que este valor subestima a real prevalência de uma disfunção associada a sintomas tão comuns e ainda sem um critério de diagnóstico bioquímico aceite. As IgG anti-gliadina têm sido apontadas como um possível marcador, e recentemente os níveis de zonulina em circulação, embora sem um consenso entre especialistas.

Nestes casos, a melhoria dos sintomas passa pela remoção do glúten da dieta e por um teste simples. Após a restrição total durante um mês, com efeitos positivos no alivio dos sintomas, a ingestão de glúten deverá levar ao retorno dos problemas e, na maior parte dos casos, distúrbios intestinais imediatos. Uma forma muito empírica mas que ainda é o melhor critério de diagnóstico que temos.

Se eu decidir retirar o glúten sem certezas de uma sensibilidade posso criar uma intolerância que não existia?

Um mito comum é que essa sensibilidade ao glúten é induzida pela sua retirada da alimentação habitual. Ou seja, ela não existia antes de o retiramos, e quando o fazemos e voltamos a introduzir mais tarde, a reacção acontece. Ora, contraponho com outra questão. Temos cerejas durante 1 ou 2 meses do ano. Passo 10 meses sem tocar nelas, e no Verão vou comer umas quantas. Vou ter reação? Não vou. Algo está errado não acham? Não é que o problema não estivesse lá, estava apenas silenciado pelo maravilhoso sistema imunitário que temos, a custo de uma inflamação sub-clinica crónica. Quando o eliminámos ele respirou fundo de alivio e baixou as armas. Voltamos a introduzir e estávamos totalmente indefesos, apanhados de surpresa. Mas é bom sublinhar que nem todos sentem este efeito, e nem toda a gente parece reagir desta forma à ingestão de glúten.

Toda a gente beneficia de uma dieta sem glúten?

A generalização é a base que desvirtua qualquer recomendação alimentar. Como vimos, a sensibilidade ao glúten e o espectro de patologias associadas não estão presentes em toda a gente. Assim sendo, nem todos beneficiam de uma dieta sem glúten, e é um erro utiliza-la como estratégia generalista de redução de peso. Em alguns casos poderá funcionar por alivio da inflamação, mas não necessariamente em todos. Na verdade, o mercado de alimentos “gluten-free” e a incompreensão do problema levam a que possa funcionar ao contrário. Muitas pessoas ficam com a noção errada de que estão liberadas para comer tudo o que for isento de glúten, sem descrição, incluíndo bolos, bolachas, e todos os alimentos com o selo “gluten-free“. Ora, nada poderá estar mais longe da verdade. Eles também engordam, e muitos não são mais do que farináceos alternativos com uma carga e índice glicémico extremamente elevados.

Mas podemos também pôr a questão ao contrário. Quem beneficia de uma dieta com glúten? Certamente ninguém. Os cereais com glúten não nos dão nada que não consigamos obter de outras fontes. No entanto, como frisei inicialmente, a alimentação humana é resultado de uma multiplicidade de factores, entre eles aspectos sociais, culturais, e até hedónicos (prazer). Não direi nunca que toda a gente deve tirar o glúten da alimentação, até por um principio básico pelo qual me guio sempre – personalização. Se tem os sintomas reconhecidos e que falámos à sensibilidade ao glúten, na ausência de diagnóstico ou com um de Síndrome do Intestino Irritável (aquele que serve para tudo o que não se sabe ao certo), talvez seja interessante experimentar umas semanas sem glúten e ver os resultados por si. Pode de facto fazer parte desses ~6%. Ou então melhor, procurar um profissional para o ajudar, porque, verdade seja dita, é fácil cairmos no exagero e alarmismo infundado.

O alerta crescente para os problemas associados à ingestão de glúten, e a prevalência significativa da hipersensibilidade, aumentaram muito a procura por soluções. Hoje há muitas e boas opções de restaurantes que fecharam a porta ao glúten. Mais um sinal dos tempos, ou melhor dizendo, da mudança de perspectiva e alargamento de horizontes. O aumento do espectro de intolerâncias ao glúten, antes apenas confinado à doença celíaca rara, aumentou à procura e o mercado respondeu. Mas verdade seja dita, em Portugal é simples comer sem glúten, e a meu ver um dos países do Mundo onde mais fácil é comer bem. Facilmente encontramos uma carne ou peixe com legumes, acompanhada de arroz ou não. Um peixe grelhado com salada. É só ter vontade para tal.

A eliminação do glúten não é uma moda, é um sinal dos tempos. Não é mais do que um reflexo do progresso científico que identificou um problema associado ao seu consumo, que não é novo, apenas desconhecido até então. O homem é cego para o que não conhece, e a maior parte dos casos ficaria apenas por diagnosticar e os sintomas por tratar. Se calhar a minha avó também tinha, a avó dela e a sua. Apenas não associaram ao glúten e viveram assim toda a sua vida. Dores de cabeça? Distúrbios gastrointestinais? Depressão? Isso nem sempre foi doença, muitas vezes até capricho. Mas também devemos ser moderados e fugir de alarmismos igualmente fundamentalistas. A dieta sem glúten não é para todos, mas o problema é real para quem dele sofre.

Termino citando William James, filósofo e médico, pai do “pragmatismo”:

“O homem vive para a ciência, assim como para o pão”

Artigo por Sérgio Veloso

Publicado em 15 Janeiro, 2016 em Alimentos funcionais e compostos bioativos, Nutrição

Responses (3)

  1. Tiago Malta
    18 Janeiro, 2016 at 0:29 · Responder

    Excelente artigo. Sóbrio, coerente, com bom suporte científico.
    Numa altura em que os sensacionalismos das “dietas da moda” nos fazem duvidar sobre o verdadeiro rumo de uma dieta para a saúde, artigos como este ajudam não só a compreender, como também a estimular o nosso sentido crítico.
    Parabéns.

  2. Isabel BragaName (required)
    16 Outubro, 2016 at 21:44 · Responder

    Gostei muito do artigo. Nunca tinha lido nada sobre o gluten. Tinha, no entanto, conhecimento da quantidade de alimentos que o tem.
    Para alem do conteudo o artigo esta escrito dum modo interessante, pois foca e explica o contraditorio, que nos ajuda a compreender e a nao ficar escravos duma exposicao com uma unica tendencia. Assim, ficamos mais documentados para compreender este tema tao actual e tomarmos as nossas decisoes relativas ao consumo e ate a fazermos as nossas experiencias.
    Parabens a quem escreveu o artigo e tambem ao Brio que fez a escolha do autor.

  3. Alexandra
    17 Julho, 2017 at 10:40 · Responder

    Parabéns! Excelente artigo. Elucidou-me uma série de questões que eu tinha.

    Fiquei confusa com duas afirmações que fez:

    “Assim sendo, nem todos beneficiam de uma dieta sem glúten, e é um erro utiliza-la como estratégia generalista de redução de peso. Em alguns casos poderá funcionar”

    “Mas podemos também pôr a questão ao contrário. Quem beneficia de uma dieta com glúten? Certamente ninguém.”

    Estas duas afirmações não são contraditórias?

    Obrigada

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