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O efeito da canela na glicemia e sensibilidade à insulina

A insulina é uma hormona central no metabolismo e partição energética. Infelizmente, a sua função fisiológica normal é facilmente comprometida em pessoas susceptíveis, em estados de inflamação (como a obesidade por exemplo), ou com uma dieta desfavorável. Re-estabelecer uma sensibilidade à insulina é essencial para a optimização metabólica, em particular nos órgãos que contribuem mais para a gestão dos níveis de glicemia e lipidémia, nomeadamente o músculo e fígado. Quando isto é atingido, a capacidade de lidar com os hidratos de carbono da dieta é superior, verificando-se uma maior estabilidade dos níveis de glicose, redução dos triglicéridos, um perfil lipoproteico mais favorável, menor inflamação, aumento da saciedade ao longo do dia, menos cravings, redução da gordura corporal, aumento da massa muscular, maior densidade mineral óssea, redução da tensão arterial, entre outras melhorias significativas a nível metabólico que se traduzem numa melhor qualidade de vida.

Para quem tem excesso de peso, em particular gordura na região abdominal, emagrecer é a melhor estratégia para restaurar a sensibilidade à insulina. O treino de força tem aqui também um papel de destaque. Mas existem alimentos e compostos bioactivos que favorecem directamente a sensibilidade à insulina e tolerância à glicose. Um dos que desperta maior interesse é a canela, mais propriamente um grupo de compostos chamado procianidinas e o cinamaldeído. Quem me procura sabe que enfatizo a utilização de canela em conjunto com as refeições mais ricas em hidratos de carbono sempre que possível, e esta é a razão…

Uma meta-análise publicada recentemente aponta para a eficácia da canela na gestão da glicemia de jejum e lipidémia em diabéticos tipo 2 [link]. Embora o efeito seja estatisticamente significativo, a fraca qualidade metodológica dos estudos impede conclusões mais robustas. Não é certa a dose eficaz, que pode variar entre os 1-6 g por dia, durante 4-18 semanas. O efeito verificado pode chegar a uma redução da glicemia em jejum na ordem dos 25 mg/dL, dos triglicéridos em 30 mg/dL, e um aumento ligeiro do HDL-c e redução do LDL-c. Tudo isto indicadores de uma melhor sensibilidade à insulina, em especial no fígado. Sabe-se que alguns compostos presentes na canela são ligandos dos PPARs, factores que promovem a oxidação de ácidos gordos e maior capacidade de metabolização dos hidratos de carbono, o que pode explicar estes resultados.

No entanto, não é pelo seu efeito a nível dos parâmetros de jejum que a canela me desperta mais interesse, nem tão pouco na sua aplicação em grupos com patologia. A canela pode melhorar a resposta glicémica após refeição e sensibilidade à insulina em qualquer pessoa. Pensa-se que o cinamaldeído tem um efeito insulinotrópico e insulinomimético, estimulando a produção normal de insulina e substituindo-a na sua acção sobre os tecidos, potenciando a capacidade de lidar com uma carga oral de glicose. Além disso, a canela aumenta a sensibilidade à insulina e sua remoção eficaz da circulação, favorecendo a acção rápida e incisiva que deveria ter. Isto deve-se a uma inibição da actividade de uma enzima chamada PTP1B, que bloqueia a sinalização da insulina, e modelação dos receptores de tirosina cinase (como o da insulina).

Num trabalho publicado em 2007, Solomon e Blannin estudaram o efeito da canela (5 g) na glicemia em resposta a uma prova de tolerância à glicose oral (PTGO) [link]. Quando os indivíduos receberam canela com a glicose, a glicemia reduziu em 13%. Mesmo quando a canela foi administrada 12 h antes do teste, a redução ainda chegou aos 10%. O índice de sensibilidade à insulina aumentou consideravelmente com a canela, independentemente de ser administrada com ou 12 h antes da carga oral. Dois anos mais tarde, a mesma equipa mostra que os efeitos da canela são perdidos rapidamente quando a utilização cessa (em 2 semanas) [link]. A sua acção deve-se a um efeito directo dos seus componentes e não a uma optimização permanente da acção da insulina. Por outras palavras, não é algo que possa fazer por um determinado período de tempo, é uma estratégia com continuidade.

Um outro estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition reforça estes resultados [link]. A ingestão de 6 g de canela com uma refeição rica em hidratos de carbono atenuou a resposta glicémica em pessoas saudáveis. Na verdade, e de acordo com outros resultados que dispomos, não parecem existir diferenças entre pessoas com peso normal e obesos [link]. O gráfico que se segue é bem ilustrativo desse efeito nos níveis de glicose. A redução da glicemia foi atribuída a uma menor taxa de esvaziamento gástrico, para além dos efeitos já mencionados na sensibilidade à insulina.

Portanto, a ingestão concomitante de hidratos de carbono com canela parece melhorar a gestão da glicemia em resposta à refeição. Já aqui falámos da importância que isso tem no controlo do apetite. Ao contribuir para menores variações da glicemia, não há uma activação dos mecanismos contra-regulatórios e estimulantes do apetite [link]. A capacidade em lidar com uma carga de glicose aumenta substancialmente, reduzindo a necessidade de secretar insulina pelo pâncreas. Considerando que a hiperinsulinémia é um dos principais factores que leva à resistência à insulina e eventual falência pancreática, é óbvio o interesse em estimular mecanismos que reduzam a glicemia e necessidade de insulina endógena. A canela actua precisamente nesse sentido.

Os compostos bioactivos presentes na canela também exercem um efeito anti-oxidante [link] e anti-inflamatório, e a inflamação é um dos principais mecanismos que levam à resistência à insulina. Na verdade a relação é recíproca, e a hiperinsulinémia crónica pode também potenciar a inflamação. A obesidade promove inflamação crónica, e a utilização de compostas nutracêuticos pode atenuar o processo e favorecer uma melhoria significativa em parâmetros de risco cardiometabólico [link]. A canela é um desses alimentos funcionais, contribuindo para um perfil mais saudável de obesidade [link] e um metabolismo optimizado para perda de gordura com intervenção dietética. Um primer para uma perda de peso eficaz e duradoura.

Como disse inicialmente, não há uma dose consensual nos estudos, com uma variação entre 1 e 6 g. Além disso, a consumo de canela pode interagir com medicação anti-diabética e anti-coagulante, pelo que não deve ser feita indiscriminadamente. Mas pondo de lado estes casos, a ingestão de canela é segura nestas dosagens, e recomendável sempre que possível numa refeição rica em hidratos de carbono para melhor gestão da glicemia. Cerca de 1-2 g por refeição deverá ser suficiente para observar efeitos positivos a este nível. Pessoalmente, junto canela às minhas refeições peri-treino (“à volta” do treino, antes, durante e após), a altura em que consumo a maior parte dos meus hidratos de carbono (50-70% do total diário). Esta estratégia permitirá uma melhor tolerância à glicose e flutuações modestas na glicemia, ideais para níveis de energia constantes e favorecimento da acção anti-catabólica da insulina.

Autor: Sérgio Veloso

Publicado em 15 Setembro, 2013 em Nutrição

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